Sábado, 25 de julho de 2026

SOLTE A VOZ: O dia em que cantei fora do tom

O importante é não desistir no meio da música. Porque, no fim das contas, quem continua aprendendo sempre encontra o tom novamente.

Naldo Prado: "Cantei uma frase inteira desafinada. Respirei, encontrei novamente a tonalidade da música e continuei". - Ilustração: Criada com IA/ChatGPT

Todo mundo gosta de contar as histórias dos grandes acertos. Eu também tenho muitas para compartilhar. Mas, curiosamente, uma das lições mais importantes da minha caminhada veio de um dos momentos mais constrangedores que já vivi. Eu fazia parte de um coral muito conhecido em Guarulhos. Entrar naquele grupo era motivo de orgulho. Eu já tinha experiência cantando, mas ainda estava aprendendo muito. Os solos quase sempre eram feitos pelos integrantes mais experientes, até que, em um congresso com a igreja completamente lotada, aconteceu o inesperado. Naquele momento, o líder olhou para mim e disse que eu faria o solo.

Meu coração acelerou. O nervosismo tomou conta. Enquanto eu tentava me concentrar, ele fez uma introdução cheia de arranjos no teclado. Tantas notas, tantas variações, que, por alguns segundos, eu simplesmente perdi a referência da melodia. Quando chegou a minha vez de entrar… entrei completamente fora do tom.

Foi como se o tempo parasse. Percebi os olhares, senti o peso daquele erro e pensei: “Pronto, estraguei tudo.” Cantei uma frase inteira desafinada. Respirei, encontrei novamente a tonalidade da música e continuei. No fim da apresentação, tudo voltou ao lugar, mas a vergonha demorou um pouco mais para passar.

Quando sentei no banco, alguns amigos perguntaram, entre risos: “O que aconteceu? Você começou tão fora do tom!” Eu apenas sorri e respondi: “Acontece”. E realmente acontece.

Hoje, olhando para trás, percebo que aquele momento não definiu quem eu era como cantor. Pelo contrário, me ensinou algo que carrego até hoje e que faço questão de repetir aos meus alunos: Errar faz parte do processo. O verdadeiro problema não é cometer um erro; é decidir permanecer nele. Quem aceita aprender, corrigir a rota e continuar crescendo, transforma um tropeço em experiência.

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Vivemos em uma sociedade que exige perfeição o tempo todo. Somos cobrados para acertar sempre, como se falhar fosse sinal de incapacidade. Mas não é. Somos humanos. Erramos. Aprendemos. Evoluímos.

Aquele solo começou fora do tom, mas terminou afinado. E, de certa forma, essa também é uma boa metáfora para a vida: às vezes, começamos mal, perdemos a direção e até sentimos vergonha. O importante é não desistir no meio da música. Porque, no fim das contas, quem continua aprendendo sempre encontra o tom novamente.

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