O desejo de atender aos pedidos da filha para que fizesse penteados afro diferentes e cheios de identidade motivou a intérprete de libras Neranildes Pereira dos Santos Savulski, 39 anos, a mergulhar no universo das tranças. Ela e mais 26 formandos do curso de trancistas, realizado pelo projeto Trançar Terapêutico, participam da formatura de capacitação, neste sábado (4), às 20h30, no Engenho Central, em Piracicaba (SP). A cerimônia de conclusão do curso dos 27 formandos acontece durante a programação oficial do 5º Raízes Nagô – Encontro de Trancistas e Turbancistas, realizado no Armazém 14 do Engenho Central. Essa é a segunda turma – a primeira contou com 10 formandos – e tem como madrinha Sueli Eleutério, incentivadora do projeto e parceira da formação.
Da união de propósitos entre Mirian Aguiar, trancista, educadora e empreendedora, e Isabel Farias, psicóloga, turbanista e diretora do Instituto Afropira, nasceu o Trançar Terapêutico. Mirian e Isabel coidealizam um projeto capaz de transformar vidas por meio da educação, da cultura e do empreendedorismo. “O Trançar Terapêutico é um projeto social, desenvolvido pelo Instituto Afropira, que utiliza a arte das tranças afro como ferramenta de transformação social, qualificação profissional, fortalecimento da identidade, geração de renda e valorização da ancestralidade”, explica Isabel Farias.
Segundo Mirian Aguiar, o projeto tem como objetivo formar profissionais capacitados para atuarem no mercado das tranças afro com excelência técnica, ética, consciência cultural e visão empreendedora, além de promover autonomia financeira e valorização da identidade negra.
Mais do que ensinar técnicas de tranças, o projeto oferece uma formação humanizada, unindo conhecimento técnico, acolhimento, empreendedorismo e consciência sobre a importância histórica e cultural das tranças afro: Mirian Aguiar, coidealizadora do projeto
No projeto, Mirian Aguiar é responsável pela formação técnica das participantes, pelo desenvolvimento do conteúdo pedagógico e pela condução das aulas teóricas e práticas, compartilhando sua experiência profissional na capacitação de novas trancistas. Já Isabel, atua na coordenação do projeto, integrando o desenvolvimento humano à formação profissional, promovendo ações voltadas ao fortalecimento da autoestima, da identidade, do pertencimento e da valorização da cultura afro-brasileira.

NOVO RUMO
O formando Pedro Luiz de Oliveira Pereira, 22 anos, motoboy, aposta num novo rumo, com a capacitação profissional obtida no curso oferecido pelo Trançar Terapêutico. “Quero montar meu negócio, ter um salão de cabeleireiro também voltado a tranças. A expectativa é muito boa, pois tem poucos homens nesse ramo, além de ser uma arte, mexer com tranças”, avalia.
Para Neranildes dos Santos, aprender a “fazer as coisas por conta própria” nunca foi apenas um hobby, mas uma necessidade real para economizar. “O cabelo sempre foi um desses desafios em que me aventurei. Em casa, nós nos apoiávamos: uma arrumava o cabelo da outra, transformando a economia em um momento de união e afeto entre nós. Anos mais tarde, esse conhecimento ganhou um significado ainda mais profundo com a chegada da minha filha. No início da infância, ela enfrentou muita dificuldade para aceitar o seu cabelo afro. Foram necessárias muitas conversas, acolhimento e paciência. Quando ela chegou à pré-adolescência, vencemos essa barreira juntas. Conseguimos passar por essa fase sem recorrer ao alisamento químico, abrindo espaço para uma linda aceitação”, relata a formanda do curso de trancistas.
De acordo com a intérprete de libras, atualmente, a filha é uma mulher preta cheia de atitude e muito estilo. “Com isso, vieram os pedidos por tranças e penteados afro. Foi exatamente aí, que senti a necessidade de dar um passo além. Para poder apoiar e acompanhar minha filha nessa linda jornada de autoexpressão, decidi me aventurar profissionalmente. Aceitei o desafio de fazer o curso de tranças”, conta Neranildes ao afirmar que pretende obter uma renda extra como trancista. “Não é só pela questão financeira, mas também para ajudar mulheres em sua autoestima e identidade”, completa.
Quem também está otimista em relação ao novo rumo proporcionado pela capacitação profissional, é Thaís Franciele dos Passos Santos, 29 anos. Ela é dona de casa e decidiu fazer o curso por ter entendido que se tratava de uma oportunidade profissional. “Vi a oportunidade de aprender algo novo e complementar a minha renda familiar. Pretendo trabalhar nessa área”, afirma a formanda. “Como mãe atípica, acredito que seja um abrir de portas, empreender como trancista. O curso é bem completo e nos dá uma base sólida de como é seguir na profissão’, completa.

TERCEIRA TURMA
Segundo as coidealizadoas do projeto, o Instituto Afropira está organizando uma terceira turma para esse semestre do ano. As inscrições serão divulgadas em breve por meio das redes sociais oficiais do Raízes Nagô e do Instituto Afropira, onde também serão informados os critérios de participação, cronograma e período de inscrições.
APOIO
O projeto Trançar Terapêutico conta com apoio da Prefeitura de Piracicaba, por meio das secretarias municipais de Cultura, Turismo e Cidadania, ETC Produtora, MVF Produtora, Sueli Eleutério, Gram Hair e da Encantti Cosméticos.

SOBRE O RAÍZES NAGÔ
O Raízes Nagô surgiu em 2022, com o objetivo de fomentar o trabalho de trancistas e turbancistas, promovendo a valorização da beleza negra por meio da arte das tranças e das amarrações de turbantes. O projeto busca fortalecer a identidade, o pertencimento e a coletividade, conectando, principalmente, mulheres negras em encontros de troca de experiências, saberes e vivências.
A 5ª edição do Raízes Nagô – Encontro de Trancistas e Turbancistas acontece neste sábado (4) e no domingo (5), no Engenho Central, em Piracicaba, com uma programação diversificada, que inclui: capacitações para trancistas; oficinas para quem deseja conhecer a arte das tranças; rodas de conversa; Formatura do Trançar Terapêutico; Sessão Solene em Homenagem ao Dia da Pessoa Trancista; desfile temático, que nesta edição traz inspirações nos elementos da Copa do Mundo. “É um dos principais eventos de valorização da cultura afro, da formação profissional e do empreendedorismo voltado às tranças e aos turbantes na região”, destaca Isabel Farias, idealizadora do Raízes Nagô.
Na celebração pelo Dia da Pessoa Trancista em Piracicaba - Lei nº 10.101/2024, de autoria da vereadora Sílvia Morales, do Coletivo A Cidade é Sua -, cuja data é comemorada anualmente em 6 de julho, serão homenageadas: Bruna Ferreira, Daiane Heloisa, Isabela dos Santos e Mirian Aguiar.
O evento é uma realização do Instituto Afropira e conta com uma equipe de coordenação formada pelas trancistas Mirian Aguiar, Dayane Heloisa, Bruna Ferreira e Isabela dos Santos, além da turbancista Ediana Maria.
