Há quem acredite que potência seja sinônimo de força. Eu discordo. Tenho 41 anos e, por muito tempo, pensei que meu crescimento dependia apenas do meu esforço. Acreditava que bastava trabalhar mais do que todos, estudar mais do que todos e provar, todos os dias, que eu era capaz. Como mulher preta, aprendi cedo que, muitas vezes, não basta ser boa. Esperam que sejamos extraordinárias para ocupar espaços que, para outras pessoas, sempre estiveram disponíveis.
Os números confirmam o que tantas de nós vivemos. Mulheres negras seguem entre as que recebem os menores rendimentos do País e ocupam uma parcela reduzida dos cargos de liderança, mesmo representando uma parte significativa da população brasileira. O problema nunca foi falta de competência. É falta de acesso, de oportunidade e de reconhecimento.
Vivemos a era da informação. Nunca tivemos tantas ferramentas para aprender, empreender e nos conectar. A tecnologia democratizou o conhecimento, mas ainda não democratizou as oportunidades. Ter acesso à informação não elimina, por si só, as barreiras impostas pelo racismo estrutural, pelo machismo e pelas desigualdades históricas.
Foi então que compreendi que potência não é apenas aquilo que realizamos. Potência é aquilo que existe dentro de nós antes mesmo de alguém reconhecer. É capacidade em estado de espera. É talento que resiste. É coragem que insiste.
Talvez o que mais nos impeça de sermos potência não seja a ausência de capacidade, mas uma sociedade que ainda desperdiça talentos ao decidir quem merece ser visto. Mesmo assim, seguimos.
Porque toda vez que uma mulher preta ocupa um espaço de decisão, ensina, empreende, pesquisa, cria ou lidera, ela não rompe apenas uma barreira pessoal. Ela amplia as possibilidades para quem vem depois.
Potência não é um privilégio de poucos. É uma condição humana. O desafio do nosso tempo é garantir que ela tenha espaço para florescer em todas as pessoas.
