Terça-feira, 16 de junho de 2026

Relatório da UNICEF alerta para avanço da obesidade infantil e influência da indústria de ultraprocessados

O relatório global “Alimentando o Lucro: Como os Ambientes Alimentares Estão Falhando com as Crianças”, produzido pela UNICEF - Fundo das Nações Unidas para a Infância em parceria com a OMS - Organização Mundial da Saúde e o Banco Mundial, alerta para o avanço da obesidade infantil e influência da indústria de ultraprocessados. O documento apresenta um panorama preocupante sobre a nutrição de crianças e adolescentes em todo o mundo, mostrando que a obesidade cresce mais rápido na infância do que

Relatório da UNICEF alerta para avanço da obesidade infantil e influência da indústria de ultraprocessados

Relatório da UNICEF alerta para avanço da obesidade infantil e influência da indústria de ultraprocessados

O relatório global “Alimentando o Lucro: Como os Ambientes Alimentares Estão Falhando com as Crianças”, produzido pela UNICEF - Fundo das Nações Unidas para a Infância em parceria com a OMS - Organização Mundial da Saúde e o Banco Mundial, alerta para o avanço da obesidade infantil e influência da indústria de ultraprocessados. O documento apresenta um panorama preocupante sobre a nutrição de crianças e adolescentes em todo o mundo, mostrando que a obesidade cresce mais rápido na infância do que na fase adulta e já se tornou a principal forma de má nutrição global.

De acordo com o relatório, uma em cada cinco crianças e adolescentes entre 5 e 19 anos vive hoje com excesso de peso. Globalmente, o número de crianças e adolescentes com sobrepeso saltou de 194 milhões em 2000 para 391 milhões em 2022. Na faixa etária de 5 a 9 anos, o sobrepeso passou de 10% para 21% e a obesidade de 4% para 10%, o que significa uma em cada cinco crianças com esse diagnóstico.

O relatório destaca que milhões de crianças estão crescendo em ambientes alimentares onde bebidas açucaradas, lanches salgados, doces e fast foods, incluindo produtos ultraprocessados são amplamente acessíveis e promovidos de forma agressiva. Em muitos países, especialmente os de baixa e média renda, esses alimentos são mais baratos e fáceis de encontrar do que opções frescas e nutritivas.

“A alimentação infantil está sendo moldada por um sistema que prioriza o lucro e não a saúde. As famílias enfrentam uma luta desigual contra a influência de uma indústria bilionária, que utiliza marketing agressivo e sedutor, especialmente no ambiente digital, para transformar o consumo de ultraprocessados em hábito desde cedo”, afirma a pediatra Anna Bohn, membro da SBP - Sociedade Brasileira de Pediatria.

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A médica reforça que as consequências começam cedo. “A obesidade infantil não é apenas uma questão estética. Ela está associada a distúrbios metabólicos, hipertensão, elevação da glicemia e do colesterol, além de problemas emocionais como ansiedade e baixa autoestima. São impactos que se estendem por toda a vida adulta”, explica.

O relatório mostra que os países de baixa e média renda vêm apresentando o crescimento mais acentuado do excesso de peso infantil. Nessas regiões, o consumo de ultraprocessados mais do que dobrou desde 2000, impulsionado por políticas agrícolas e de mercado que barateiam ingredientes como milho, soja e trigo. Já nos países de alta renda, o padrão se inverte: o excesso de peso é mais comum entre crianças de famílias mais pobres, onde dietas saudáveis são financeiramente menos acessíveis.

O levantamento também revela que 60% dos adolescentes de 15 a 19 anos consomem mais de um alimento ou bebida açucarada por dia, 32% ingerem refrigerantes e 25% consomem mais de um alimento processado salgado diariamente. Em países como Austrália, Canadá, Estados Unidos e Reino Unido, os ultraprocessados já correspondem a metade das calorias ingeridas pelos adolescentes.

Segundo Anna Bohn, é preciso agir com urgência. “Não se trata de proibir, mas de proteger. É impossível esperar que uma criança faça escolhas conscientes diante de tamanha exposição. É dever dos adultos pais, escolas e governos criar ambientes mais saudáveis, restringir a publicidade voltada ao público infantil e incentivar o acesso a alimentos de verdade”, argumenta a médica.

O documento também aponta a necessidade de políticas públicas que enfrentem a influência da indústria de ultraprocessados, que utiliza estratégias para enfraquecer regulações, retardar legislações e explorar brechas em períodos de crise, como foi observado durante a pandemia de Covid-19.

AÇÕES RECOMENDADAS

Entre as oito ações urgentes recomendadas pela UNICEF estão: Implementar o Código Internacional de Marketing de Substitutos do Leite Materno, incluindo medidas para restringir o marketing digital de produtos destinados a bebês e crianças pequenas; Adotar medidas obrigatórias para transformar os ambientes alimentares infantis, com restrição à disponibilidade e à publicidade de alimentos e bebidas não saudáveis, especialmente nas escolas; Melhorar a disponibilidade e acessibilidade de alimentos nutritivos produzidos localmente, redirecionando subsídios agrícolas e fortalecendo a infraestrutura de produção e distribuição; Estabelecer salvaguardas contra interferência da indústria em políticas públicas, incluindo transparência e proibição de lobby; Promover campanhas de conscientização e mudança de comportamento, capacitando famílias e comunidades para reivindicar o direito a uma alimentação saudável; Fortalecer programas de proteção social, garantindo que crianças em situação de vulnerabilidade tenham acesso a alimentos saudáveis; Envolver jovens nas discussões sobre justiça alimentar, apoiando o protagonismo de adolescentes em políticas públicas sobre nutrição.

Também é fundamental aprimorar os sistemas de dados e vigilância nutricional, monitorando o excesso de peso e o consumo alimentar infantil para subsidiar políticas eficazes. “O relatório é um alerta global. As crianças não podem continuar crescendo em um ambiente que as adoece. A infância não deve ser um alvo de mercado, e sim uma prioridade de proteção. Políticas públicas, educação e conscientização social são os caminhos para reverter essa tendência”, analisa a médica Anna Bohn.

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