Há muitos anos, eu e minha irmã fomos convidados para fazer backing vocal da gravação de um cantor. Antes de aceitar, ele passou em casa para nos ouvir cantar. Peguei o violão às pressas, cantamos uma música e, quando terminamos, ele ficou impressionado: “Vocês cantam muito! Amanhã, passo para levá-los ao estúdio”.
Ficamos felizes. Além da oportunidade, ainda receberíamos pelo trabalho. No dia seguinte, chegamos ao estúdio. Até então, ainda não o havíamos ouvido cantar. Quando ele entrou na cabine e começou a gravar, eu e minha irmã nos entreolhamos por um instante… e depois evitamos olhar um para o outro. Quem tem irmão sabe que, às vezes, basta um olhar para começar a rir.
Mas não era uma situação engraçada. Era preocupante. Ele não conseguia manter a afinação, mudava a melodia da própria música a cada tentativa e tinha dificuldade para identificar o tom em que deveria cantar. O produtor já demonstrava, pelo olhar, que sabia da dificuldade e não encontrava uma forma delicada de ajudá-lo.
Naquele momento, percebi que o problema não era aquele cantor. O problema começou muito antes. Provavelmente, muitas pessoas disseram a ele: “Você canta demais!”; “Está pronto para gravar!”; “Deus já te capacitou, pode lançar seu CD”. Talvez ninguém tenha tido coragem de dizer, com carinho: “Você tem potencial, mas ainda precisa estudar”.
Existe uma diferença enorme entre incentivar alguém e iludi-lo. Incentivar é mostrar um caminho de crescimento. Iludir é convencer alguém de que já chegou ao destino.
Curiosamente, comigo aconteceu o contrário. Também ouvi muitos elogios ao longo da vida. Já disseram que eu deveria gravar, participar de programas de televisão e seguir carreira imediatamente. Mas nunca deixei que esses elogios substituíssem o estudo. Sempre entendi que, por melhor que eu cantasse, ainda havia muito a aprender.
Até hoje continuo estudando, buscando conhecimento e aprendendo com profissionais que admiro profundamente, como Renata Prado e Gustavo Leonardo, além de tantos outros professores e músicos que contribuíram para a minha formação. Quanto mais aprendemos, mais percebemos o quanto ainda existe para aprender. Essa talvez seja uma das maiores virtudes de um cantor: manter a humildade para continuar sendo aluno.
Como professor de canto, também vivi o outro lado da história. Já recebi alunos que chegavam dizendo: “Todo mundo fala que eu canto muito”. Alguns realmente tinham facilidade. Outros, ainda não conseguiam acertar uma nota. E sabe qual era o problema? Não era cantar mal. Era nunca terem recebido uma orientação sincera.
A voz é um instrumento que pode ser desenvolvido. Técnica se aprende. Afinação se treina. Percepção musical evolui. Mas tudo isso começa quando reconhecemos que sempre existe espaço para crescer.
Por isso, se você gosta de cantar, aceite os elogios com gratidão, mas nunca permita que eles sejam maiores do que a sua vontade de aprender. No fim das contas, o melhor elogio não é ouvir “você canta perfeitamente”. É ouvir, depois de anos de dedicação: “Como você evoluiu”.
